quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Em nome do pai, o filho!

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Antes do filho nascer, ele já estava preparando o seu presente. E o presente não seria comum. Seria algo extraordinário, fabuloso, fantástico. Acreditava que se ficasse três dias e três noites ajoelhado pedindo, repetindo a frase ininterruptamente, seu desejo seria atendido. E foi o que fez. 
Numa manhã qualquer de um dia qualquer, há poucos dias antes do nascimento do filho, ele iniciou sua jornada rumo ao desconhecido dos sacrifícios feitos por amor. Seu filho seria a eternidade tão desejada, a extensão de sua própria vida, a prorrogação irremediável de sua própria existência. Ele se ajoelhou então e pediu, orou, rogou, implorou. Ficou inerte naquela posição pelos intermináveis três dias e três noites, exatamente como estava descrito nos livros da tradição. Exatamente como havia aprendido com seus próprios pais e também com os mais velhos.

Ao fim das últimas vinte e quatros horas, com o dia já se avizinhando da madrugada e com a claridade do dia já tomando forma no horizonte nuvens escuras começaram a se formar naquele límpido céu. O pai do filho, que ainda não havia nascido, ficou de pé, olhou para os joelhos feridos, olhou para o horizonte e para as nuvens e sorriu satisfeito. Havia conseguido fazer o sacrifício sem que a tentação da desistência viesse lhe fazer companhia, sem que a vontade fraquejasse um só momento. As nuvens se formando eram um bom sinal. 

Três dias depois o sol já não visitava o céu e as nuvens antes amigáveis se tornaram ameaçadoras. Pareciam arautos de alguma coisa ruim por acontecer, mas não chovia. A nuvens estavam gigantescas e não chovia. Naquela madrugada o filho do pai nasceu e nesse momento as nuvens escuras e ameaçadoras puderam descansar de seu próprio sacrifício. Despejaram sobre a terra a mais pesada chuva que o pai já tinha visto. Fora uma chuva como um choro desabafado. Como um ufa de alívio. E o filho veio ao mundo num dia de chuva, no dia dessa chuva. O pai sorriu mais uma vez e dessa vez o sorriso nunca mais saiu de seus lábios. 

O filho abriu os olhos enquanto chovia. O pai viu. O filho falou sua primeira palavra e para a surpresa do pai, não foi pai que ele disse e sim chuva, pois ainda chovia. O pai ouviu. O filho comeu da mão do pai a mesma comida que ele comia enquanto a chuva caia. O pai o alimentou. O filhou cresceu de mãos dadas com o pai, aprendeu com o pai a acreditar no improvável e até no impossível, mas aprendeu mais com a chuva que nunca parava do que com seu próprio pai. O filho cresceu e ficou muito parecido com o pai. Os mesmos olhos sonhadores. As mesma sobrancelhas grossas. O mesmo rosto forte mas ao mesmo tempo sensível. Os mesmos gestos, gostos e costumes. 

O pai já não se via. O pai se via filho e muitas vezes o filho se via pai. O pai um dia desejou que a chuva parasse para que ele e o filho pudessem receber a visita do sol, da poeira em dia de ventania, do cheiro das flores, do vôo dos pássaros. O filho não gostou do desejo do pai. O filho não entendeu que o pai queria mais para o filho. O filho que já havia se tornado o pai desejou que tudo fosse um sonho. 

O pai ajoelhado pedindo pelo sol não viu quando o filho encerrou sua oração com um gesto. O pai já não era o pai. O filho também jamais seria o pai. A chuva parou e o sol finalmente apareceu. Mas foi um sol triste, tímido, como se tivesse perdido um ente querido. Não brilhava como deveria e o filho percebeu o que tinha feito. Não fez como seu pai. Não podia repetir os gestos do pai. Tinha que negar tudo o que tinha aprendido. Apenas uma coisa ele podia fazer. E então desejou a chuva mais uma vez com aquele ritual. Mas dessa vez o filho que já não tinha pai, não se ajoelhou, apenas gritou por três longos dias para que a chuva voltasse. 

Gritou para que as nuvens apresentassem suas lágrimas. Ordenou que as chuvas jamais o deixassem lembrar do seu pai. Quis e desejou que raios e relâmpagos escondessem no fundo de seu peito o filho que não se tornou pai porque o pai um dia desejou o sol. E assim foi. 

As nuvens se formaram, o sol desapareceu e a chuva veio. O pai perdeu-se nas lembranças do filho e nas enxurradas da chuva. O filho também partiu com o vento que vinha do norte. E não foi mais filho. E não foi mais pai. E também não foi mais sol. Apenas chuva. Os olhos do filho choraram lágrimas de chuva. E já não era filho. Era o pai chorando pelos olhos sonhadores do filho.

Um comentário:

Rodrigo Sant'Ana disse...

Belo texto, ele ultrapassa o que se poderia dizer de um simples texto.
Para pai e filho lêrem...
Pena que o meu não goste e não valorize esta arte.
Parabéns.