sexta-feira, 25 de abril de 2008

Calçada

Era hora do almoço quando Ariano decidiu que naquele dia não iria almoçar. Não havia tempo pra pensar em futilidades inúteis referentes à gastronomia e à manutenção de suas necessidades básicas, como a reposição das calorias gastas até aquele momento com seu entediante, mas recompensador trabalho, que na verdade consistia em contar e conferir, nunca repetindo o que era contado e conferido. Todo dia era uma surpresa.

Não havia tempo a perder. Passou rapidamente pelo vestiário, trocou de roupa como se tivesse que pagar uma multa exageradamente alta, caso se demorasse nesse ritual, quase fúnebre, em que as pessoas muitas vezes ficam horas e horas experimentando peças e peças de roupas. Fez isso num átimo de momento.

Já na calçada, como um psicótico, olhou para um lado e outro da rua, na direção de qualquer carro, como se quisesse compreender todo o seu funcionamento somente pela pura e simples apreciação do modelo, da cor, dos tamanhos e modelos das rodas, os tipos de pneus. Parecia prestar atenção aos mínimos ruídos dos motores, perceptíveis talvez apenas aos cães.

Gostava de amarelo, achava essa cor a mais bela entre todas as outras e sempre que tentava nunca conseguia encontrar uma razão prática e racional pra esse gosto, tão estranho quanto gostar de assistir jogos de futebol, aos domingos, às quatro horas da tarde, totalmente nu no sofá em frente ao televisor.

Seguiu, instintivamente, na mesma direção em que seguia o primeiro carro amarelo que por ali passou, indo no sentido do Dama do Alvoroço, que era um clube, que ficava na zona leste da cidade. Um clube, porém, não se podia dizer que era um clube social, pois estava mais pra clube anti-social. Na verdade era mesmo um bom e velho clube daqueles em que somente os homens são bem vindos, mais parecendo o Clube do Bolinha.

Andou durante uns quarenta minutos, pela calçada que estava bastante tumultuada. Muitas pessoas indo e vindo, parecendo que todas estavam com os mesmos objetivos, ou seja, atrapalhá-lo. Mas tendo percebido esse estratagema, rapidamente, nosso neurótico e esquizofrênico herói tomou uma difícil decisão, que provavelmente mudaria completamente o rumo de nossa história. Mas não muito.

Dentro do táxi, Ariano olhou e reparou em tudo. Viu que as borrachas de vedação das portas não estavam no lugar, a manivela de subir ou descer o vidro não funcionava corretamente, o assento do carro não era confortável o suficiente, o cinto de segurança não estava dentro das especificações do conselho nacional de trânsito, o motorista não estava decentemente trajado, aliás, trajava uma calça jeans bastante surrada, uma camiseta de um branco um tanto encardido, usava uma boina preta na cabeça à Che e uma barba enorme, que fazia com que aparentasse ter pelo menos uns sessenta anos. Ariano não aguentou e perguntou sua idade. Tinha apenas vinte e dois.

Assim que conseguiu inventariar todo o interior do táxi, Ariano lembrou-se que na pressa de se livrar daquela multidão da calçada, se esquecera de reparar qual era a cor do carro e isso o incomodou bastante. Foi então que abriu a janela e coloco aquela sua enorme cabeça espantada para fora do carro para verificar pessoalmente a cor, sem ter que apelar humildemente para a boa vontade do motorista com sua possível pergunta, que pro motorista podia ser inútil e sem sentido, além do mais não queria atrapalhá-lo na sua tão compenetrada condução do veículo.

O carro era vermelho e ele nem titubeou em pedir para que o motorista parasse o carro imediatamente, pois ele precisava descer bem ali. Mal sabia o motorista que ele não podia ficar um minuto sequer dentro de um carro que não fosse amarelo. O motorista ainda tentou argumentar que ali era muito perigoso pra ele descer, mas não teve jeito.

Na calçada novamente pode respirar aliviado, havia se livrado da maldição de ter que andar em um carro como aquele. Havia andado apenas algumas quadras, mas o movimento na calçada já era bem menor e isso foi constatado com muito contentamento pelo nosso amigo. Havia poucas pessoas andando naquele ponto. Pôs-se a caminhar na direção do Clube do Alvoroço, sem pressa, tranqüilamente com a certeza de que o rio corre para o mar.

Os muros e grades das casas passavam lentamente por ele. Muros altos e baixos. Grades de todos os tipos e cores. Havia alguns em que trepadeiras vigorosas cobriam toda a extensão do muro ou grade, desfigurando totalmente o muro. Nosso amigo caminhava insistente por aquela calçada e achava muitas vezes que ela queria o impedir de passar. Havia muitas raízes e rachaduras e buracos, que contribuíam para que a calçada mais parecesse o front da primeira guerra mundial, com suas trincheiras e enormes buracos causados pelas bombas, e muitas vezes, podia avistar até mesmo pessoas lá dentro, tornando-se os soldados entrincheirados aguardando ordens de ataque ou evasão.
Continuou perspicaz em sua caminhada, pois não podia falhar naquele momento, era necessário que conseguisse chegar naquele lugar que nem mesmo ele sabia onde era e isso estava parecendo uma seqüência interminável de algum experimento onde as coisas sempre terminam onde começam.

Chegou em frente ao Clube do Alvoroço exatamente três horas depois de ter deixado apavorado o seu trabalho sem ao menos pedir ao chefe para sair, nem mesmo explicar os motivos de sua imediata ausência do local de trabalho. Lá estava ele, parado e olhando fixamente para a fachada do clube. Mais uma vez com aquele olhar citado no inicio dessa história que mais parecia um louco ou maníaco a maquinar alguma malvadeza ou loucura, obviamente.

O prédio era uma construção antiga que mais parecia um museu. Havia seis grandes colunas ao velho estilo grego ou romano, talvez um misto dos dois estilos. Essas colunas pareciam funcionar como uma amurada de proteção para os freqüentadores daquele local e assim exercia fielmente sua função, pois pra quem não sabia o que ali funcionava, jamais descobriria num primeiro olhar. A construção era bastante alta, se fosse um prédio deveria ter uns dois ou três andares. De onde ele estava não dava pra ver mais detalhes além da imensa porta cor de ébano, com um grande instrumento daqueles que a gente utiliza para bater à porta, cujo o nome eu infelizmente desconheço.

O jardim era imenso e bastante colorido, havia inúmeros tipos de plantas ornamentais e não havia nada que separasse a calçada, o jardim e o prédio do clube. Foi nesse momento que aconteceu o inesperado, pra mim é claro. Nosso amigo deu apenas alguns passos em direção à porta quando teve que encarar dos dois lados do estreito caminho por onde passava, canteiros com milhares e milhares de flores coloridas e infelizmente sem nenhuma da cor preferida do nosso herói.

Sem que mudasse qualquer traço do seu já citado rosto de gente louca, ele recuou, deu a volta, porém, se é o que vocês, leitores, estão pensando, não posso garantir que o motivo tenha sido o fato de que nenhuma daquelas pequenas, perfumadas e delicadas flores não ser da coloração de sua preferência. O fato é que ele voltou à calçada, pois estava atrasado novamente, como demonstrava os gestos frenéticos que fazia enquanto olhava pro seu relógio.

... Já na calçada, como um psicótico, olhou para um lado e outro da rua, na direção de qualquer carro, como se quisesse compreender todo o seu funcionamento somente pela pura e simples apreciação do modelo, da cor, dos tamanhos e modelos das rodas, os tipos de pneus. Parecia prestar atenção aos mínimos ruídos dos motores, perceptíveis talvez apenas aos cães....

Mas isso já é uma outra história!

SILVA, Edmilson R. Textos Sobre Assuntos Aleatórios, Mas Sem Importância Alguma. Edição Única. Kaloré: Liberdade, 2008.

Um comentário:

gilberto disse...

Caraca Véio... Q loucura essa seu texto... Continua assim q vcvai longe... Não esqueça de me convida para o lançamento de suas crônicas, quero meu exemplar autografado...
Ate mais........